quarta-feira, julho 26, 2017

o que nunca viveu não pode morrer

Sempre gostei da madrugada. Parece que havia um cheiro diferente no ar, quase como se algo sensacional estivesse para acontecer. Acendi um cigarro, sentei na beira da calçada e fiquei vendo os carros passarem numa avenida perto de casa.

Fazia um mês que meu pai havia morrido. Eu estava usando uma camisa azul marinho de veludo canelado que foi dele nos anos 80. Não era nem perto do que seria um abraço dele, mas era o que eu tinha.
Desde que ele morreu eu não conseguia deixar de pensar no período que me separei de Soraia e passei umas semanas na sua casa. Foi logo antes de saber que eu seria pai. Logo antes dele descobrir o câncer.
Ele acordava carrancudo aos domingos mas saía parecendo um jovem que buscava se exercitar. Chegava a ser fofo, aquele homem velho com barba de bode que sempre que tomava café a deixava úmida da bebida, pegando sua bicicletinha e saindo para pedalar. Voltava bem humorado, cozinhava uma comida ruim e eu zombava dele o resto do dia.
Me contava histórias as vezes reais, as vezes mirabolantes, mas nunca deixava de me contar.
Sempre me contava sobre como era sua vida quando descobriu que ia ser pai da minha irmã, Evelin.
Ele foi embora e é como se tivesse uma torneira pingando pra sempre nas nossas vidas. Mas a torneira da Evelin pingava bem em cima de sua cabeça, e cada pingo parecia um martelo batendo, batendo.
Evelin chorou até desmaiar no velório dele, e nem eu nem ninguém a vê desde então. Ela pediu para botar na lápide "o que nunca viveu não pode morrer" mas ninguém concordou porque ele só não viveu em sua vida. Na minha e na das demais pessoas ele era o cara que enquanto estivesse na área, era certeza de gol. Sinto falta dele, e tenho pena de Evelin, nunca vai sentir de fato a falta que ele faz enquanto para ela, ele for apenas uma enorme chama de remorso queimando tudo a sua frente.


"Black and blue
And who knows which is which and who is who?
Up and down
And in the end it's only round and round and round and round"

quarta-feira, maio 24, 2017

Você só vive uma vez

Pablo, eu tinha 23 anos, trabalhava na IBM na época, me matava de trabalhar.
A mãe de sua irmã tinha ido viajar para o exterior fazia um mês, e fazia uns dois que havíamos rompido o namoro.
Não era para Alice ter sido tão importante, eu havia conhecido pela internet, tomamos uma cerveja e quando percebi, eu estava na casa dela. Ficamos algumas vezes que durou alguns meses. Brigávamos mais do que transávamos.
"Eu não quero ouvir essas coisas, pai."
Mas vai ouvir, viu, vai ouvir porque você ta num momento muito delicado e especial e eu só posso te oferecer isso, meus conselhos.
Então, dois meses depois que concordamos que não dávamos certo, ela me liga lá do outro lado do mundo dizendo que estava grávida.
"Era da Evelin?" Sim, era da Evelin.
Alice voltou pro Brasil com 6 meses e um barrigão, falou comigo rapidamente um dia desses e voltou pra terra dos pais dela, já estava enrabichada com um tal de Tom.
Tentei acompanhar a gravidez mas naquela época era muito complicado, a moeda de lá era cara, tudo era caro, não dava pra simplesmente atravessar o mundo pra cuidar da menina. Então quando a Evelin nasceu, eu ainda demorei uns 5 meses pra conseguir viajar.
Sua irmã era bonitinha, cabelo bem farto e preto igual o meu era. Covinhas nas duas bochechas e o sorriso igual da Alice. Eu me apaixonei por ela, o bebê mais lindo que já vi.
Voltei pra São Paulo com o coração partido. Comecei a trabalhar ainda mais e comprava brinquedos, roupas, ia estocando tudo. Foi na época que morei no prédio do João, a casa era uma zona de brinquedos. Foi a época mais agonizante da minha vida, vivi 5 anos assim, viajando uma vez por ano pra ver sua irmã e sendo massacrado pelo trabalho aqui no Brasil. Eu vivia apenas para isso, e tinha que lidar com toda aquela pressão, aguentar ver Evelin chamando o Tom de papai, Alice me odiando e não cooperando e eu sem um puto pra ajudar eles a criarem a minha menina. Meu dinheiro aqui do trabalho da IBM não valia de nada.
Aí eu abri a livraria e o resto você já sabe, me arranjei, conheci sua mãe, amei muito ela, Alice veio para o Brasil e eu pude ter mais contato com Evelin, ser pai dela de fato depois que o Tom sumiu.
Quando estava tudo bem, sua mãe me anuncia a sua gravidez. Porra, um menino! Pra comer tremoço e ver jogo do Ituano comigo, era tudo o que eu queria! Eu tinha a oportunidade de fazer com você tudo o que não consegui fazer com sua irmã.
Só que você sabe né Pablo, eu tive muita sorte. Sua mãe era uma jóia.
Se tem uma coisa que você precisa guardar dessa coisa toda que te contei agora é: dê valor a esse tempo agora que seu bebê vai nascer. Cuide bem de quem você ama. Aproveite o seu bebê, cada minuto com ele. Não seja o pai que eu fui para sua irmã...
"Você não teve culpa, pai..." Eu tive, filho, tive sim... e vou levar essa culpa para sempre. O tempo é implacável, Pablo. Eu perdi Alice, Evelin, sua mãe e minha juventude. Tudo o que eu posso fazer é tentar impedir você de cometer os mesmos erros que eu. Então cuide bem do meu neto, ensine tudo o que puder,  porque o tempo não volta, o tempo só avança nessa brincadeira sádica que é a vida.






quinta-feira, abril 20, 2017

Separação

Pablo separou da mulher.
Pediu pra passar uns dias em casa, chegou quarta-feira com o videogame e uma mala de roupa.
Perguntou algumas coisas, se eu tinha alguma diarista, como eu comia. Dei o numero do restaurante que me vendia marmitex e disse que vez em nunca eu chamava uma moça pra limpar. Perguntou se eu não tava comendo ninguém, dei risada.
Na sexta a noite, fui na casa do João jogar conversa fora e comer tremoço com cerveja. Contei pra ele que agora meu filho estava morando comigo, como era antigamente. Havia me dito que a mãe estava na Bahia com os parentes, que só por isso tinha ido para minha casa.
"E você não se ofendeu em saber que é a ultima opção do seu filho?" perguntou. Eu não me ofendi. Deve ser bem chato morar com um velho ranzinza de 60 anos que fuma e bebe como um gambá e só sabe reclamar de como São Paulo está ficando chata.
São Paulo está ficando chata. Se tem grafite reclamam, se não tem reclamam que não tem. Manifestação todo dia, que galera chata.
Mas até que algumas coisas vem para o bem. Eu por exemplo nunca mais peguei trem e metrô porque agora só ando de bicicleta.
Domingo eu levantei cedo e fui de bicicleta até a Vergueiro comprar uns legumes. Tenho saudades de quanto era vegano. Mas não tenho mais bolso para isso não, Tofu está caro, soja é caro.
Quando voltei, Pablo estava acordado só de cueca jogando videogame na sala. Já ia lá pelas 11h, agora eu entendia porque a mulher pediu separação.
Liguei para a mãe dele "Escuta aqui, você não vai voltar para São Paulo não? O Pablo ta aqui só de cueca na minha sala jogando Playstation" ela riu "Ai Aurélio, você sempre amoroso comigo e com seu filho né" e então me disse que demoraria mais algumas semanas para voltar.
Pablo me disse que ela estava casando pela segunda vez, com um cara de sua idade, um cara também divorciado, e também com filhos. E de repente eu me senti velho demais.
Quando conheci a mãe dele, ela tinha 21 e eu 39 anos. Eu já tinha uma barba branca de bode que levo na cara até hoje. Exibia Juliana ao meu lado tal qual uma joia, uma obra de arte. E ela era mesmo, e fazia eu me sentir com 21 anos também.
Mas acho que enjoamos um do outro, acabou o mistério e o companheirismo foi substituído pela obrigação de estar.
Aí um dia ela mudou e eu não liguei.
E eis que estou nessa vida até hoje.

"Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo."
Jean-Paul Sartre

É tempo de reciclar

Recentemente, li um artigo que fazia uma previsão de como seria o mercado têxtil nos próximos 15 anos. De forma geral, ele falava sobre a crescente demanda de reformar roupas antigas que voltam a moda, falava sobre pessoas que preferem comprar tecido e confeccionar a própria roupa do que ter que enfrentar lojas e preços nem sempre condizentes com a qualidade da peça. 
No ramo dos móveis, é notável o crescimento de revistas e programas de TV que estimulam a reforma de móveis antigos ou usados, até que tal objeto fique como novo. 
Desde que a crise econômica internacional se instaurou no Brasil, reformar, restaurar, reaproveitar e reciclar vem sendo lemas bem difundidos na sociedade, com alimentos, objetos, brinquedos, livros, água da chuva, etc. 
Porém segundo a revista Exame, o Brasil ainda tem um longo caminho pela frente, uma vez que sendo a meta mundial de 50% de reciclagem e nosso país vem atendendo apenas 13%. 
Países como Áustria e Alemanha já atingiram a meta de 50% cujo o prazo é até 2020, cerca de 1% de seu PIB já advém desse reaproveitamento. 
Mas também é fato de que falta iniciativa governamental para que a meta seja batida. 
No Mato Grosso, por exemplo, a falta de lugares apropriados para reciclagem de vidro já é de conhecimento geral. Pilhas de garrafas se acumulam pois a unica forma de reciclar as garrafas seria trazendo até São Paulo, que é um procedimento caro. Nas estações mais quentes, o acumulo de garrafas passa a ser um problema que afeta a saúde dos mato-grossenses, uma vez que acumula água da chuva dentro dos frascos, facilitando a proliferação de mosquitos transmissores de doenças. 
Paralelamente a isso, devido a imensidão de nossa terrinha, em Caxias do Sul, ainda na onda da reciclagem (e todos agradecem), uma empresa desenvolveu um tijolo de construção feito de garrafas pet encontradas no lixo. 
No Nordeste, garotas estudantes do Instituto Federal do Alagoas criaram um tijolo a partir de cinzas de cana de açúcar e foram premiadas por isso. 
Existem mil maneiras de reciclar, seja com uma coleta seletiva, com a reforma de uma calça ou reaproveitando água, uma vez que o termo deixou de ser sinônimo de apenas reaproveitar resíduos e passou a significar a esperança de um mundo menos entulhado de lixo. 
E é de interesse do interesse de todos, reciclar está na moda e faz bem, então mãos a obra? 

segunda-feira, dezembro 05, 2016

Rua Apagada

João tinha ido num chá-bar com a noiva naquele mesmo dia um pouco mais cedo. 
Ele a acompanhava em tudo agora, um medo tremendo de perder a moça. 
A noite fomos no Moço-Bar, o bar que tinha na porta do meu prédio e que a gente não tinha o menor interesse em saber o nome de ninguém, estabelecimento, garçom, caixa, nada. A gente levantava a mão e falava "Moço", logo apareceria um rapaz de sorriso fácil e mãos hábeis para nos servir um chopp gelado e um pratinho de azeitonas. 
Então, na noite daquele dia de chá-bar do João e da Bárbara, fomos no Moço-Bar. 
Estava tranquilo. Mas a noite seguia gélida, ou era eu que volte-meia me sentia mais friorento e sensível que o normal. Lembrava da minha pequena, lá do outro lado do mundo naquele lugar cheio de gente fria como a própria terra e ficava assim, com um nó na garganta achando que estava fazendo errado em deixá-la tão longe do nosso povo quente morando com a mãe. Da ultima vez que falei com ela, na manhã daquela mesma noite, estava eu dentro de um ônibus sentado num banco e a moça ao meu lado não parava de reclamar das minhas pernas abertas. 
Disse tchau a pequena e já logo ralhei com a moça do lado "não dá pra fechar as pernas não moça, se quiser troque de assento". A moça trocou, o ônibus não estava muito cheio. Anotei mentalmente de que nas próximas vezes iria de metrô para a casa. 
Contei pro João dessa moça, ele disse que fui rude. João era assim agora, desde que noivou. Tudo era questão de ser rude com as mulheres. João só faltava ter vagina, por causa das coisas feministas que Bárbara andava falando na cabeça dele. 
Eu via bem a cara dela sobre mim, quando entrava em casa, parecia estar entrando numa cueca usada. Tudo lavava, tudo queria limpar antes de usar. Boa gente, engraçada, mas muito moderna pro meu gosto. 
De manhã, quando consegui falar com minha pequena, voltava eu de um café da manhã vegano com uma garota.
Sim, eu fui a um encontro. Nem eu mesmo acredito que tive paciência de ir a encontro qualquer. Mas eis que conheci uma rapazinha muito arisca nas redes sociais e havia dias que não largávamos o papo. Ela disse qualquer coisa sobre não saber comprar mel orgânico e eu me ofereci para orientá-la numa feira orgânica no Santa Cecília. Aí tomamos café e na despedida, eu quis provar o sabor dos lábios de mel da menina. E depois fiquei pensando nela no caminho, como era jovem e decidida e doce. Então quis falar com minha filha e liguei. 
Estava bem, mas mal falava português. Senti ódio da mãe, a vaca que não ensinava português para a criança. Não sabia falar "caramelo" sem aquele sotaque alemão. Perguntei de Alice, falou que tinha ido ao supermercado. 
Todas essas vaginas na minha vida, tão difíceis de lidar. 
"Lide com um pau então, cara" disse o João. 
Então por um minuto entendi a cara que Bárbara fazia quando entrava na minha casa, e rimos. Observei a rua em frente ao bar. Toda apagada. 
Pensei que há século os homens já faziam isso, de se reunir depois do trabalho ou aos fins de semana para jogar conversa fora ou para falar de negócios - de acordo com a classe social dos membros. Tomavam cachaça, cerveja, vinho, falavam de suas vaginas como se elas fossem suas, como eu mesmo havia feito.
Na mesa do lado, quatro moças davam risada e tomavam uma torre de chopp de vinho. Pensei na mocinha do café da manhã daquele dia mais cedo e não tive muita vontade de cortejar as moças da mesa. Mas notei João sem aliança e sem desgrudar os olhos de uma morena.
Pensei o quanto para nós, João e eu, aquilo era normal. Ir pro bar sem nome, beber sem nenhum motivo especial e cortejar mulheres. 
E pensei que em uns tantos anos atrás não veríamos uma mesa só de mulheres fazendo o mesmo. 
Fiquei feliz, mas aquela rua apagada logo a frente me dizia uma coisa, me dizia que embora elas pudessem ser livres para sentarem no bar bebendo e comendo tremoço, elas jamais poderiam passar na rua apagada da mesma forma que eu ou João. 
Pensei na minha filha. De certa forma, o fato dela estar na Alemanha com sua mãe me confortou. 

Mesa de Bar - João Werner 05-07-08


terça-feira, outubro 11, 2016

O Amor nos tempos do câncer

DIA 1
O funcionário novo era muito estranho, o Valter. Ele estava sentando ao meu lado, nossas baias eram do tipo grandes e separadas por uma pilha de pastas apenas. Se ele virasse para trás, conseguiria ver tudo o que eu fazia em meu computador o dia todo. Podia me vigiar.
Eu não gostava dele. Ele parecia ser velho mas ao mesmo tempo, jovem. Ele não falava claramente, sempre sussurrante e fazendo falsetes, usando palavras em desuso. Ceroula, carraspana, chumbrega, fuzarca. Parecia ter engolido em dicionário de 1920. Fiquei incumbida de treiná-lo. Ele faria dupla comigo.  
Em nosso primeiro contato, ele parecia arredio, irritado. Até sorria, mas parecia estar na defensiva. Tinha muita dificuldade em se concentrar. Não era totalmente ignorante sobre o trabalho, embora tivesse vindo de uma outra área diferente. Ensinei algumas coisas básicas pela manhã e voltei para minha mesa achando que ele não havia aprendido nada, e que ficaria perdido o resto do dia.
Havia uma pilha de pastas com documentos que ele deveria analisar e preencher algumas planilhas. Três horas depois de ter lhe passado a tarefa, ainda não havia feito nem um terço. Como era o seu primeiro dia, dei-lhe mais tempo. Fui para uma reunião que durou 1h20. Quando voltei ele havia terminado. “Alguma coisa aconteceu aqui”, pensei.
No almoço, pouca conversa. Parecia longe, disperso.

DIA 4
Valter chegou 20 minutos atrasado. Parecia ter vindo correndo. Disse que ficou preso no transito local. Semblante pesado, parecia não ter dormido. Antes dele chegar lhe deixei outra pilha de documentos para analisar e digitalizar em seguida. Quando chegou, sem que houvesse qualquer explicação, se pôs a fazer o trabalho exatamente como eu teria lhe instruído. Fiquei surpresa. Brinquei “temos um Valter Mercado aqui na empresa gente” e ele riu, aquela risada  chata de criança birrenta, três tons acima da sua voz normal que já era fina. Eu odiava aquilo.

DIA 8
Valter chegou 30 minutos atrasado, como se estivesse correndo, justificou que era o transito e saiu para tomar um café com o celular na mão, ficou 15 minutos fora. Eu não era sua supervisora. Não cabia a mim dar broncas. Mas tanto eu quanto as demais pessoas da equipe olhamos com o olhar de desaprovação, igual quando alguém tomava um copinho de caipirinha antes do almoço no restaurante que frequentávamos e que oferecia antes do bufê. Estava desenvolvendo as tarefas muito bem, mas ainda me passava a imagem de estar perdido, confuso e inseguro.

DIA 11
Valter chegou incríveis 60 minutos atrasado. Não me deu justificativa. Chegou com ar cansado, com poucas palavras. Trabalhou o dia todo quieto. Eu estava irritadíssima, conforme seu treinamento avançava, mais nos consolidávamos como dupla, que era o formato usado naquela empresa. Eu tinha uma dupla que chegava atrasado, estava sempre cansado, não passava segurança, não dava justificativas!

DIA 20
Valter segue chegando atrasado. Reportei a nossa supervisora ontem. Hoje quando ele chegou 1h atrasado, a supervisora o chamou para uma reunião. Ficaram muito tempo lá e eu não sei o que aconteceu. Teremos um evento corporativo daqui cinco dias e eu preciso de uma dupla, não temos tempo hábil para treinar outra pessoa, portanto Valter não pode ser demitido.

DIA 22
Valter chegou apenas 5 minutos atrasado. Mas falou no celular de manhã com uma tal de Deise por uns 40 minutos, dava instruções bem específicas falando baixo naquela voz irritantemente aguda. Ele não havia cortado o cabelo desde que entrou na empresa e agora estava um estilo meio Luiz Caldas. Completamente detestável. Ontem no almoço, até que conversamos. Ele era budista, por isso estava sempre tão conformado. Ele tinha olhos verdes. E tinha uma cicatriz profunda e feia no ombro, resultado de um acidente de carro. O acidente tinha cortado ao meio o futuro que tinha como lutador de jiu-jitsu, uma vez que reduzira os movimentos do ombro. Eu seguia surpresa.

DIA 26
Ontem tivemos o evento que foi em Santos. Valter chegou 15 minutos atrasado, mas deu tudo certo. Na volta, numa van alugada pela empresa, Valter cochilou pesadamente sobre meu ombro. Eu tinha todos os motivos do mundo para esbravejar, me chacoalhar e empurrá-lo para longe, mas deixei ficar.

DIA 30
Valter não veio trabalhar, não deu justificativa. Achei muito curioso que a postura que nossa supervisora tenha com ele seja tão complacente, com qualquer outro funcionário da equipe, ela teria no mínimo dado algumas advertências verbais. Fiquei o dia todo curiosa querendo saber o que raios fez Valter faltar. Comecei a suspeitar de que talvez seus atrasos não fossem relaxos ou transito.

DIA 37
Valter alegou para mim estar fazendo um tratamento e que por isso teria que sair duas horas mais cedo, e que havia combinado com nossa supervisora. Tinha olheiras. Estava sempre com ar confuso, perdido. Eu gostava de conversar com ele. Tínhamos gostos muito parecidos, cultura pop japonesa, gastronomia, política. Nem lembrava mais de odiar a risada infantil, o cabelo de Luiz Caldas e sua baixa estatura, que em algum momento anterior me irritou.
Mas eu queria saber o que realmente estava acontecendo. Pensei que talvez ele tivesse usando drogas.

DIA 42
Valter estava com o rosto completamente inchado. Demorava 30 minutos no banheiro sempre que ia. Eu tinha quase certeza que estava usando drogas. Mas gostava quando puxava algum assunto e ele parecia uma Wikipédia Humana, destrinchando tudo para mim. E ele falava japonês fluentemente.

DIA 47
Valter chegou usando uma camisa abotoada errado, cabelo preso num mini rabo-de-cavalo. Perguntei quando ele iria cortar o cabelo, fez um muxoxo. Estávamos aos poucos ficando íntimos. A barba também estava por fazer, mas achei bonito assim, másculo.
Quando queria algo, chegava igual uma criança sorrateira e dava um puxãozinho no meu cabelo. Eu seguia o chamando de Valter Mercado. No almoço, ele fingia adivinhar o prato do dia. Ele era muito engraçado e estava sempre tranquilo embora cansado. Tínhamos outro evento dali alguns dias.

DIA 53
Valter chegou 3 horas atrasado, abatido, devorando um pacote de bolachas, roupa amarrotada e cabelo preso feiamente. Barba de mendigo.
Fiquei irritada na mesma hora. Pedi que não fosse no evento comigo mal arrumado deste jeito. Teríamos muitos clientes lá e não achava uma boa ideia. Dessa vez era em Campinas, ele ficou e eu fui sozinha.

DIA 54
Valter não veio trabalhar. Perguntei a minha supervisora o que houve, se teve justificativa, ela disse que era pessoal. Então minha suspeita sobre ele estar usando drogas estava cada vez mais forte. Senti pena e raiva. Um cara fantástico como ele, se condenando.
Pedi saída do trabalho no almoço, avisei que não voltaria. Liguei para Valter várias vezes, queria uma intervenção. Na 34ª chamada, Valter atendeu, a voz meio fina estava quase sumida. Disse que estava a caminho de sua casa. Ele implorou que eu não viesse. Então pedi para ele me receber no portão pelo menos, porque eu precisava falar.
No portão de uma casa grande e antiga, caindo aos pedaços, veio Valter de camiseta branca simples, com uma grande mancha escura. Calças de moletom, chinelos de dedo, cabelo preso. Olhos – verdes – com olheiras fundas. Mas o que me deixou mais impressionada eram as marcas de mordida no braço.
“Você ta usando drogas? ”
“Não”
“Você chega atrasado e quase sempre mal arrumado, você fica muito tempo no banheiro, e muito tempo falando com alguém sobre remédios no celular, todos os dias. Você precisa de ajuda, pode se abrir comigo. O que você está usando? ”
“Eu não estou usando drogas, não preciso de ajuda”
“O que são essas marcas de mordida no seu braço? Você está acabado! O que é essa mancha na sua camiseta? ”
Eu estava alucinada, todos os sinais possíveis de usuário de drogas estavam ali.
“Porque não quer me receber em sua casa? Deve ter uma carreira de cocaína em sua mesa né?”
Ele suspirou alto. Olhou bem para meus olhos e eu fiquei meio constrangida.
“Entre”.
A casa grande tinha uma sala na parte da frente por onde entrei. Tudo estava apagado, abafado e com cheiro de mofo. Só conseguia vislumbrar os móveis. Silencio modorrento, entramos num corredor que dava para um quarto no fim, de onde eu via uma luz fraca de abajur. No quarto, uma cama de casal no centro, e uma pessoa depositada ali. Um balde exalava um cheiro acre enjoativo ao lado da cama.
Valter estava a minha frente, se aproximou da cama e puxou um cobertor que escondia quase totalmente a pessoa na cama.
“Pai, essa é a Patrícia, veio nos visitar”
A pessoa que Valter se referiu como “pai” não se mexeu. Nem ao menos olhou. Parecia ter tido o sangue sugado e a pele colada junto ao osso. Esquelético e frágil. Careca, boca semiaberta, não consegui ver muitos detalhes. Estava surpresa demais. Era esse o segredo então.
O pai soltou um som alto e agonizante.
Num minuto me lembrei de todos os momentos que Valter me parecia distante, cansado, confuso, preocupado, pensando na morte da bezerra. Pensei em todos aqueles atrasos, e todas as faltas, da cumplicidade de nossa supervisora que provavelmente sabia de tudo.
Estava em prantos.
“Meu pai tem um tipo raro de câncer já faz 4 anos. Minha mãe cuidava dele enquanto eu trabalhava mas faz seis meses que ela faleceu de um infarto espontâneo. Não tínhamos dinheiro para interna-lo, mal tínhamos dinheiro para comer e comprar os remédios, então combinei com a vizinha dela olhar meu pai enquanto eu trabalhava. Mas havia uma série de cuidados que tenho que prever. Comida, banho, remédios que você nem imagina. Ele não vai aguentar muito mais, mas ainda é meu pai.”
Eu o abracei. E estava apaixonada por ele. E queria cuidar dele, dar descanso e carinho.

DIA 56
Assinei meu papel das férias. Fazia 3 anos que não tirava férias. Era cedo ainda. Fui informada que Valter faltou novamente. No dia em que estive em sua casa, ele disse que acreditava estar perto do fim.
Levei muita comida para eles, fui recebida por um sorriso cansado, mas bem satisfeito. Era como se eu sempre tivesse que estar ali. Fiquei o dia todo, limpando a casa, conversando e rindo com Valter. Era incrível que mesmo sob aquelas condições, ele ainda podia ser tão maravilhosamente bem-humorado.
Então lhe contei que estava apaixonada por ele. Estávamos no quintal, estendendo uns lençóis. Ele riu, não acreditou muito.
“Não estou em condições de ter uma vida própria agora”.

DIA 58
Ontem pela manhã, o pai de Valter finalmente descansou na eternidade.  Soube que era alcoólatra, violento e mulherengo antes de ficar doente. Valter me contou isso com muito pesar, com vergonha. Eu o beijei. Consolei, cuidei.
O cansaço haveria de passar, as coisas haveriam de se ajeitar. O dever dele estava cumprido.
Tudo ia ficar bem agora.

Munch - Det syke barn (1896)





"Se o cotidiano lhe parece pobre, não o acuse: acuse-se a si próprio de não ser muito poeta para extrair as suas riquezas." 

Rilke

















sexta-feira, outubro 07, 2016

ipê-branco

Quando João tinha 14 anos, foi trocado pela primeira namoradinha do Ginásio por um babaca que jogava futebol nas categorias de base da Portuguesa. Na mesma semana, sua mãe pediu divórcio de seu pai, o deixando para morar com ele, e sua irmã mais velha anunciou que estava de mudança para a casa do noivo, praticamente casados.
João viu, de repente, todas as mulheres de sua vida saindo de fininho, como se tivessem fugindo. Nesta semana misógina de sua vida, o único conforto foi devorar todas as músicas do Ira! que seu pai guardava LPs e CDs em baús, junto com uma penca de livros da biblioteca da família.
Ele não se envergonhava de chorar, enquanto lia Alexandre Dumas, Milan Kundera ou Lygia Fagundes Telles, pelo contrário, se fortalecia nisso.
Então quando fez 15 anos, na hora de cortar o bolo caprichosamente feito pela sua mãe numa tentativa falha de parecer que se importava com João, ele desejou nunca mais sofrer pela perda de uma mulher em sua vida. Ou pelo menos não se importar mais. Desejou ser sozinho, só ele e seus livros.
Com um sopro forte, a chama da vela se apagou em cima do bolo, enquanto duravam aqueles cinco segundos constrangedores entre o fim do “Parabéns” e a escuridão.

Havia um canto da rua onde ele morava quando garoto, que de jeito nenhum alguém poderia ir lá, porque era escuro e contavam histórias desagradáveis sobre aquele lugar. Pois bem, João chegou a conclusão de que sua vida amorosa, depois daquele aniversário de 15 anos, virou um lugar escuro e cheio de histórias desagradáveis, tal qual o canto da rua onde morou.

Aos 19 anos, seu pai faleceu. Ficou se perguntando se tal feito era em consequência de seu pedido de viver sozinho, uma vez que o velho era sua única companhia. A perda de seu velho significava uma vida inteira de saudades e arrependimento pelas coisas que não disse, que não fez. Era como uma penitência por não ter dado valor quando o tinha.
Acolheu toda a coleção de livros de seu pai e jurou aumentá-la. Foi trabalhar numa livraria na Avenida Ipiranga, perto de onde morava na Luz. Absorto nas mil coisas que planejava para si, não reparava em ninguém ao seu redor, vizinhos e porteiros sempre passavam em brancas nuvens, havia um número restrito de amigos nessa fase de sua vida, seu melhor amigo Hélio do primário e outros caras da escola.

Até que conheceu Ana, nova funcionária da livraria.
As mulheres eram para ele até então como se fossem um rolo compressor cheio de espinhos que passava por cima de seu coração. Mas só do seu coração. De todas as outras pessoas no mundo, não, as mulheres eram acalento. Eram um grande ipê branco que havia no jardim de sua escola, quando floria, lhe lembrava sua mãe. Mas não floria sempre.

A garota Ana tinha um ponto de vista bem maduro da vida pós-adolescência. Ela achava que não bastava se apaixonar. As pessoas deviam ter admiração e respeito pelo companheiro. Deviam ser fãs um do outro. João se apaixonou por ela, garota esperta, cheia de experiências para contar, algumas tatuagens, franjinha anos 70, roupas ora descoladas, ora vintages, batons vermelhos e na testa a bandeira da igualdade de gênero estampada. Ana jamais seria aquelas garotas de dramas baratos. Ana era forte. Linda, divertida.
João a queria. Queria que ela entrasse em sua vida, que conhecesse seu charmoso apartamento, queria que as cervejas depois do expediente fossem para sempre, queria cozinhar com ela e queria acordar com o sorriso dela ao lado. Mas claro que tinha uma parte de seu interior que sempre que o via se aproximando dela, corria aos ouvidos dizer "corra, é cilada, ela vai fazer você gostar dela e depois vai sumir" e outra parte que dizia "se você não for lá, vai envelhecer sozinho jogando dama no Sesc Pompeia, é isso que você quer?" .

Um dia a viu chorando na porta da livraria e então, como aquilo lhe incomodou, resolveu falar. Começou já se declarando e então Ana disse que não podia, não queria, ainda aos prantos. Era a primeira vez em um ano desde que conhecera que a via chorar. Ela disse que havia acabado de descobrir que estava grávida.

Ana sumiu. E João voltou ao seu casulo de livros que o mantinha em ponto morto.
Entrou numa banda, tocava bateria. Deixou barba e cabelos crescerem. Abriu um sebo com os montes de livro que acumulara ao longo da vida. Fez muitos, muitos amigos. Criou um estilo de vida descoladinho, buscava felicidade nas coisas simples. Era fotógrafo nas horas vagas, falava mandarim e só andava de metrô ou bicicleta. Curtia bares que tocavam música ao vivo, e conhecia todos do centro. São Paulo's lifestyle full time.

É claro que vieram outras garotas, algumas duradouras, outras passageiras. João procurava um pedacinho de Ana em cada uma delas. Um sorriso de dentes brancos, perfeitos, retos, sacanas. Uma pinta em forma de estrela que ela tinha no ombro. Os joelhos tortos, o som da risada. O estilo, os cabelos. Todas as garotas tinham algo que Ana tinha. Era uma forma de nunca a esquecer, porque talvez ela era a unica que o fazia crer que podia reverter o pedido que fez aos quinze anos e não perder mais ninguém que amava.

Todas as sextas feiras a noite, era regularmente o dia de ensaio de sua banda, que no sábado sempre se apresentava num bar na periferia. Ensaiavam sempre na casa de Hélio, o vocalista, que ficava na Aclimação. Hélio era seu amigo desde que a garota do primário o trocou pelo jogador da Portuguesa. Foi Hélio que lhe apresentou o primeiro cigarro, era Hélio que o aguentava todas as vezes que falava sobre sua mãe e irmã com ressentimento, que falava de Ana. Hélio era o cara. Mas ao longo dos anos, Hélio conheceu a Ana dele, uma professora chamada Rose, casaram e tiveram filhos, e além disso, Hélio envelheceu a ponto de ficar careca e meio barrigudo. Mas ainda era seu amigo de sempre, um ator engraçado que ganhava a vida com peças bem humoradas e alguns poucos programas de TV em canais pagos. Fazia algum tempo que o casamento de Hélio e Rose não estava indo bem, e seu amigo não conseguia se expressar sobre o que estava acontecendo exatamente. Era só uma apatia, uma indiferença. João sabia disso por cima, eram homens e amigos, não precisavam de protocolos para se abrirem um com o outro. Até que uma sexta feira antes do ensaio, Hélio informa a todos que não poderia fazer o ensaio em sua casa pois estava se separando de Rose.
Dados os devidos consolos entre os homens, fizeram uma noitada de bebidas e conversa para animar Hélio. E então, quando já ia tarde e todos já estavam bêbados falando alto, ouvindo Led Zeppelin e atirando garrafas pela janela, a campainha tocou. João havia alertado para o perigo de se fazer barulho em excesso. Abriu a porta desconfiado, pronto para dar uma boa resposta trépida a quem quer que fosse seu vizinho reclamão.

E então era Ana.
Um pouco mais velha, afinal, ambos tinham 41 anos agora. Mas era ela mesma, o sorriso branco, todo certinho, os joelhos tortos, a pinta em forma de estrela.
Ela arregalou os olhos, ele mal conseguia piscar. Ana virou as costas rapidamente e foi para seu apartamento, do lado oposto. João ainda bestificado, a seguiu, mas a porta bateu em sua cara grosseiramente.
Os rapazes, percebendo o clima que se seguiu, foram embora. Em seu apartamento, João dormira com a imensa vontade de bater no apartamento 508 de Ana.

Mas o que dizer 22 anos depois? Não conseguia pensar. Não conseguia acreditar que a primeira coisa que seu cérebro sugeria dizer pudesse ser real.
Como nunca tinha encontrado Ana no prédio antes? Ela estaria casada?
João percebeu que esses anos todos, moldou sua vida de forma que se um dia reencontrasse Ana, ela coubesse ali. E agora ela estava ali e já tinha uma vida.
Precisava fumar. Sair, tomar um café na padaria. Queria falar com ela, era sua chance, mas ao mesmo tempo sentia um medo danado.
Foi até o 508, mas não conseguiu bater na porta.
Desceu as escadas frustrado, e notou um degrau estragado. Anotou mentalmente que iria subir de elevador.
Então, como se o destino tivesse cansado da novela da vida privada de João, ele se viu no mesmo elevador que Ana. Ela mal respirava ao lado dele, e ele não parava de fita-la. E então o elevador deu uma bela chacoalhada e parou. Estavam presos.
- Eu não acredito que o elevador parou.
- E eu não acredito que te encontrei. Você se lembra de mim?
- ... João.
Ficaram se olhando alguns segundos longos.
- Você sumiu Ana. Eu sempre quis encontrar você de novo.
- Eu tive que sumir. Tive alguns problemas de família.
- Você disse que estava grávida.
- Pois é, eu acabei não tendo o bebê.
Ana abaixou o olhar certamente encabulada. Ambos estavam absortos em o que dizer, Ana parecia trêmula. Quando retomaram a conversa, falaram ao mesmo tempo, praticamente se sobrepondo:
- Eu sei que fui muito babaca do jeito que te falei as coisas que sentia sobre você, mas eu precisava falar porque você era a única pessoa pela qual eu nutria sentimentos, e você me fez fazer planos que eu jamais pensei ser capaz de fazer...
- Eu tive que sumir, mas eu nunca deixei de pensar em você, fui uma idiota em ter deixado um cara como você para trás, quis voltar, quis te achar mas agora eu tenho você...

João pensou em todos os momentos que quis ter Ana por perto, e agora ela estava ali. Para ouvir suas músicas exageradas, para cozinharem juntos, para fotografarem, para irem em shows. Para terem tatuagens. Para não fazerem nada. Para fazerem as cervejas depois do expediente serem eternas, junto com os sorrisos e a companhia um do outro.
Olhava para o semblante de Ana na sua varanda algum tempo depois, um grande calor invadia sua alma. O canto escuro de sua vida amorosa passara por uma reforma e parecia ser agora um grande ipê branco florido para sempre.



Tabebuia roseo-alba



"Árvore da vida
Árvore querida
Perdão pelo coração
Que eu desenhei em você
Com o nome do meu amor" 

Arnaldo Antunes - As Árvores

quinta-feira, outubro 06, 2016

Cavalo Manco


Eu estava levando um alicate de unha para afiar numa perfumaria, quando ouvi uma voz que puxou de dentro de mim uma série de lembranças. 
Vi um cabelo loiro a minha frente. 

Me lembrei do dia que a dona daquele cabelo loiro desmaiou na escola do ensino médio que estudávamos. Estávamos prestes a apresentar um seminário de biologia na escola, mas ela não havia estudado, então ficou nervosa e desmaiou, ou fingiu um desmaio.
A conheci no caminho de volta da escola, no ônibus que por sinal era o mesmo, mas eu descia no começo da linha e ela no ponto final. Eu perdi meu cartão de passagens do ônibus e ela achou e o guardou. Tinha 500 reais de créditos lá, daria pra ela usar e economizar o ano todo. Mas ela me achou e devolveu o cartão. Viramos amigas. 
Nos intervalos das aulas, saíamos para comer lanche na cantina. Raramente Dani tinha dinheiro para pagar, então sempre dividíamos um salgado. 
Ficávamos numa mesa observando os rapazes passando, pensando e comentando sobre quem seria legal, quem seria chato, quem era bonito, quem não era. Tínhamos o mesmo olhar. 
Antes de ir embora, almoçávamos a merenda da escola. Compartilhávamos a salada. Falávamos de boca cheia uma com a outra e ainda faziamos guerra de arroz no meio do refeitório, desse jeito conhecemos muitas pessoas que queriam participar da diversão e logo éramos um grupo. 
Mas mesmo no grupo, sempre prevalecia eu e Dani, sempre dentro dos ônibus de tênis destruídos, pé em cima dos bancos, ouvindo rap ou funk e falando muito palavrão. 
No começo eu não era assim, era retraída e calada, séria. E Dani era dorminhoca, quieta, chegava a parecer melancólica. Só que quando estávamos juntas, parecia que algo dentro de mim acordava, algo realmente muito íntimo e alegre. Ou então uma revolta ao mundo como ele era, compartilhada com ela. Parecíamos um par da mesma pessoa. 
Dani gostava de um grupo de forró muito famoso na época, chamado Calipso. Perto da minha casa havia um grande poster do Calipso que ela sempre que via pendurado na papelaria, brilhava os olhos. 
Em seu aniversário, apareci na escola com o poster e a presenteei. 
Havia um rapaz que pegava ônibus conosco todos os dias. Ele tinha uma barba no queixo, um sorrisão bem claro e alegre e um olhar misterioso que eu amava. Era moreno, forte, musculoso, gostava de bandas que eu gostava. Dani sabia dessa minha queda pelo rapaz, e ele nem ao menos olhava para mim, mas falava com ela. 
No meu aniversário, na saída da escola, Dani me deixou sozinha no estacionamento da escola onde o rapaz apareceu e me puxou num beijo. Meu primeiro beijo. 
Mas ela tinha um problema muito grande com aprendizagem. Tentei ajudá-la de varias formas mas ela repetiu de ano. E na segunda vez que ia repetir de ano de novo, seus pais a tiraram da escola. 
Nos afastamos drasticamente. Comecei a namorar o rapaz do primeiro beijo. 
Soube que Dani engravidara algum tempo depois. 
"Oi Ingrid". 
Oi Dani, minha amiga. 

domingo, setembro 25, 2016

Desculpe o transtorno, eu preciso falar do amor

Quando eu tinha 14 anos, descobri uma traição da minha mãe com outro cara.
Ela e meu pai eram casados desde sempre e meu pai era completamente apaixonado por ela.
Fazia todos os gostos dela. Era extremamente fiel, dedicado, bom esposo. Eu, que sempre tive problemas com meu velho, admirava demais isso nele. E ela, que eu sempre achei meio mimada mesmo sendo minha mãe, estava saindo com um cara da mesma idade dela e trabalhavam juntos. Descobri porque um dia durante a noite acordei e ouvi uma conversa muito sacana e picante do tipo que só poderia ser normal se fosse com meu pai. E não era, ele, que trabalhava a noite, não usava celular durante o expediente. Minha mãe achava que eu estava dormindo enquanto eu, do meu quarto ao lado da pequena saleta, conseguia ouvir todos os pormenores. Depois disso foi só espionar SMSs no celular dela enquanto tomava banho e meu pai já havia saído. Pimba!, lá estavam mensagens para um tal de Roberto que eu peguei raiva instantaneamente. Chutei a porta do banheiro gritando "Ô mãe! Sai aí que eu preciso falar com você!" e ela confessou tudo e implorou para que eu não contasse a ninguém. Estava em choque. Eu também.
Depois disso eu comecei a achar que esse negócio de amar alguém era a mais pura balela. Porque meus pais continuaram casados mas eu tinha certeza que eram casados por comodidade. Meus avós estavam ha 45 anos juntos, e brigavam mais que tudo. Que sentido faria para dois velhinhos de 70 anos estarem sós agora? Era muito mais cômodo permanecerem casados, mesmo depois de descobrirem que não existe essa de amor.
Analisei e cheguei a conclusão de que os casais ao meu redor não se amavam de verdade. Uma tia, irmã de minha mãe que tinha problemas em conseguir namorado, casou-se com um rapaz do interior do nordeste, para ela era comodo casar com ele porque tinha sido um dos poucos a se interessar por ela e para ele era vantajoso vir para uma cidade grande.
Minha irmã mais velha, jovem e insegura, com um garoto que da vida não sabia nada, que com minha família por perto tinha mais chances de conhecer coisas e lugares. Minhas tias todas tinham um fator que fazia do casamento delas algo mais obviamente comodo do que por amor.
Então, na minha conturbada adolescência, em que eu mesmo não acreditando na balela do amor procurava uma namorada, todos os casais seguiam para mim sendo superficiais.
Eu tentava construir coisas em comum com as garotas que me relacionava. Tentava construir essas coisas que os casais tem, códigos e piadas internas, dava presentes, mimava de todos os jeitos que eu conseguia, mas nunca sentia nada que fosse significativo o suficiente. Tentei por muito tempo ainda achar o que as pessoas chamavam de amor, mas não encontrava nem nos casais ao redor, nem em mim próprio a procura de alguém. Então desisti, e deixei que o tempo me levasse aonde quisesse.
Surgiram outros problemas para lidar. Alguns que não haviam solução, outros que a solução era bem difícil e consumia meu cérebro em tentar resolver. Eu evidentemente deixei de pensar em "achar um amor", como quando era adolescente. Tinha tanta coisa para eu fazer... Achava eu que esses problemas me fariam ainda menos atrativo para o alguém, se é que ele existia.
Depois de um tempo que havia desencanado de achar o amor, e mais tempo ainda que havia iniciado minha busca, achei. E então, como se fosse o refrão daquela musica do Arnaldo Antunes:
Mas mudou, você veio
Derrubando o mundo inteiro
Demorou, mas veio
Como a hora do recreio
Era tímida mas franca. Era tão linda. Era como se só existisse ela para mim. Eu queria ela para mim a vida inteira. Era diferente mas familiar. Eu me sentia uma rua esburacada e ela um paralelepípedo perfeito. Eu sentia que já a conhecia ha tanto tempo. Não tinha lugar mais gostoso para se estar no mundo do que em seus braços. Foi um corte na minha linha temporal, e um recomeço incrível.
E tão importante quanto amá-la, era saber que era recíproco. Eu via nos olhos dela, eu sentia na voz dela, sabia o quanto ela era a vontade comigo.
Sabia que agora o tempo poderia passar, porque eu ja tinha encontrado a minha outra parte.
Não me importava mais com o relacionamento dos outros terem ou não amor. Mas lamentava por eles não estarem sentindo o quanto era sublime.





segunda-feira, agosto 22, 2016

desajustados

Estava eu num curso de graduação que não gostava, cheio de gente na minha sala que não eram meus amigos e que nem eu queria ser deles.
Mas um dia conheci um cara de lá e a simpatia rolou na hora. Depois conhecemos mais gente que agregamos ao nosso grupo de desajustados. Alice, Denis, Vinicius, Janaína, eu e o impronunciável.
Alice era uma menina loira, de olhos azuis, de aparência feminina e delicada. Ouvia rap, andava de tênis de skatista, boné, camiseta do Corinthians e pra nossa idade, era a mais politizada de nós todos.
Denis era desengonçado, feio, coberto de espinhas, engraçado, divertido, descontraído e o alvo da zoação.
Vinicius era magro, cabelos longos e lisos, baixo e falava coisas desconexas, fazendo todos rir, era também um verdadeiro enciclopédia humana, sobre tudo ele sabia.
Janaína, era linda, inteligente mas não demonstrava, metida a pin up, a mais bem sucedida de nós, até mesmo por estar no fim do curso que o resto dos membros do grupo era ingressante.
E o impronunciável era um cara bem curioso e simpático. Que não se chamava impronunciável, claro. Se chamava João. Mas me acostumei a pensar que pronunciar o nome dele mesmo que mentalmente era ruim. Enfim, meia hora conversando com ele, e ele se interessaria pela sua vida como se te conhecesse há muitos anos. Era alto, magro, com traços de quem no futuro ficaria um pouco mais gordo. Cabelo liso escuro porém cabeça rapada. Pele clara, algumas espinhas, bochechas rosas, nenhum sinal de barba.
Todos tínhamos entre 17 e 23 anos. Todos odiávamos nosso curso na faculdade. Todos tínhamos críticas mordazes a sociedade. E no fim, nos completávamos.
Então, apareceu o Roger.
Não que o Roger tenha sido um problema, mas ele era demais para nós.
Ele era popular, todos conheciam e conversavam com o Roger. Todos. Da faculdade inteira.
Roger era bonito e descolado, era alto, magro, sorriso cativante, andava de um jeito peculiar, todos os caras queriam ser como Roger. Usava óculos e parecia ainda mais culto. Era um geek musical. Era inteligente e antenado. Era O cara.
E por sua proximidade com Vinicius, devido a debates longuíssimos sobre neurolinguística que ambos tinham as vezes, ele começou a se aproximar de nós, os desajustados.
Não era surpresa nenhuma que João e Janaína estavam juntos ocasionalmente. Mas não era nada sério, era uma brincadeira.
Da mesma forma que o grupo todo incentivava que rolasse algo entre eu e Denis, sem nem sonharem que eu era completamente apaixonada pelo impronunciável. Foram saber quando não éramos mais um grupo.
Roger então, cativou Alice, depois cativou a mim como amiga  e me tornei sua confidente. Depois cativou João e acabou por cativar Janaína.
E se apaixonaram perdidamente, e João não gostou nada disso.
E foi o primeiro racha em nosso grupo.
Eu era louca e secretamente apaixonada por João, e era confidente de Roger e de João.
Um dia estava eu e ele a ensaiar umas musicas para um festival de bandas universitárias que João havia me chamado para participar, dentro de uma sala que tinha uma mesa de ping pong, na faculdade. E entrou Roger e Janaína, sem perceber, aos beijos. João saiu da sala furioso e Roger foi atrás se explicar, e tive que separar uma briga feia entre os dois.
Depois disso, tive que ficar me dividindo entre ouvir as lamurias de Roger e os xingamentos do impronunciável sobre Roger.
Até que um dia, conversando com Alice sobre esta merda toda, ela disse que consertaria a briga dos dois.
Eu não sei o que ela fez, mas um dia, ao entrar na faculdade e ir para o lugar onde sempre ficávamos: o jardim de inverno de uma luminária só, vi Roger e João abraçados, chorando, se jurando como irmãos.

Eu mal sabia que aquele era o começo do meu fim. 


***esta crônica faz parte de um conjunto de crônicas que tratam dos mesmos personagens, todas identificadas com o marcador "Janeiro"***